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Medicina e Saúde
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ENVIO EXCESSIVO DE TORPEDOS PREOCUPA ESPECIALISTAS NOS EUA
UOL - Katie Hafner/The New York Times, terça-feira, 26 de maio de 2009
ENVIO EXCESSIVO DE TORPEDOS PREOCUPA ESPECIALISTAS NOS EUA
Eles o fazem tarde da noite, quando seus pais estão dormindo. Em restaurantes e enquanto atravessam ruas lotadas. Eles o fazem na sala de aula com suas mãos escondidas nas costas. E fazem tanto que seus dedões chegam a doer.

Annie Wagner, de 15 anos, uma estudante exemplar da nona série em Bethesda, Maryland, costumava escrever mensagens em seu pequeno telefone LG tão rápido quanto num teclado comum (Foto)

Estimulados pelos planos com mensagens de texto ilimitadas, oferecidos por operadoras como a AT&T Mobility e Verizon Wireless, adolescentes americanos enviaram e receberam uma média de 2.272 torpedos no quarto trimestre de 2008, segundo a Nielsen Co. - quase 80 mensagens por dia, mais que o dobro da média de um ano antes.

Annie Wagner, de 15 anos, uma estudante exemplar da nona série em Bethesda, Maryland, costumava escrever mensagens em seu pequeno telefone LG tão rápido quanto num teclado comum

O aumento na quantidade de torpedos é recente demais para gerar qualquer dado conclusivo sobre efeitos na saúde. Porém, Sherry Turkle, psicóloga e diretora do Initiative on Technology and Self do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, em inglês), pesquisadora do uso de torpedos entre adolescentes na área de Boston pelos últimos três anos, diz que isso pode causar uma mudança na maneira como os adolescentes se desenvolvem.

"Entre os trabalhos da adolescência estão se separar de seus pais e encontrar a paz e a tranquilidade para se tornar a pessoa que você escolheu ser", explicou ela. "Os torpedos atingem diretamente essas duas tarefas".

Psicólogos esperam ver os adolescentes se libertando de seus pais à medida que se desenvolvem em adultos autônomos, continuou Turkle, "mas se a tecnologia faz com que manter o contato seja fácil demais, isso se torna mais difícil de acontecer agora você tem adolescentes que escrevem para suas mães 15 vezes por dia, perguntando coisas como, Devo comprar o tênis vermelho ou o azul?"

Quanto à paz e à tranquilidade, ela continuou, "se algo próximo de você está vibrando a cada dois minutos, fica muito difícil entrar nesse estado de espírito".

"Quando se é inundado por comunicação constante, a pressão para responder imediatamente é bastante alta", acrescentou. "Então, se você está no meio de um pensamento, pode esquecer".

Michael Hausauer, um psicoterapeuta de Oakland, Califórnia, diz que os adolescentes têm um "tremendo interesse em saber o que está acontecendo nas vidas de seus colegas, agravado por uma tremenda ansiedade para não ficar de fora da turma". Por essa razão, o rápido aumento nos torpedos tem potencial para grandes benefícios e grandes males.

"As mensagens de texto podem ser uma ferramenta enorme", disse. "Elas oferecem companhia e a promessa de conectividade. Ao mesmo tempo, seu uso pode fazer um jovem se sentir assustado e exposto demais".

Os torpedos também podem cobrar seu preço nos polegares dos adolescentes. Annie Wagner, de 15 anos, uma estudante exemplar da nona série em Bethesda, Maryland, costumava escrever mensagens em seu pequeno telefone LG tão rapidamente quanto digitava num teclado comum. Alguns meses atrás, ela notou uma dolorida cãibra em seus polegares. (Ultimamente ela tem usado o iPhone que ganhou em seu 15º aniversário. Ela disse que escrever agora é mais lento e menos doloroso.)

Peter W. Johnson, professor associado de ciências de saúde ocupacionais e ambientais na Universidade de Washington, disse que ainda é muito cedo para dizer se esse tipo de estresse é danoso. Todavia, acrescentou, "baseado em nossas experiências com usuários de computadores, sabemos que o uso intenso e repetitivo das extremidades superiores pode acarretar problemas no sistema locomotor. Logo, temos alguns motivos para achar que torpedos demais poderiam levar a danos, temporários ou permanentes, aos polegares".

NA ESCOLA

Annie disse que embora sua escola, assim como a maioria, proíba o uso de telefones celulares na sala de aula, ela conseguia enviar mensagens com seu LG colocando-o sob seu casaco ou sua mesa.

Sua colega Ari Kapner explicou, "É só fingir que está pegando algo na mochila".

Os professores muitas vezes nem ficam sabendo. "É um grande problema, e está desenfreado", disse Deborah Yager, professora de química de um colégio localizado em Castro Valley, Califórnia. Yager realizou recentemente uma pesquisa anônima com 50 de seus alunos a maioria disse enviar torpedos durante as aulas.

"Não consigo distinguir quando está acontecendo, e não há nada que possamos fazer", desabafou. "Não vou gastar um tempo todos os dias para tentar policiar isso".

Jovens tendem a ser ainda menos cientes acerca dos torpedos do que, digamos, videogames ou uso geral de computadores. Os planos ilimitados muitas vezes significam que os pais param de atentar aos detalhes das contas. "Converso com os pais em meu escritório", disse ele, "faço perguntas e ninguém está pensando sobre isso".

Ainda assim, alguns pais estão começando a tomar providências. Greg Hardesty, um repórter em Lake Forest, Califórnia, disse que, no mês passado, sua filha de 13 anos, Reina, enviou 14.528 mensagens em um mês. Ela mantinha o telefone ligado após se deitar, tocando no modo de vibração e esperava o aparelho se iluminar e sinalizar uma nova mensagem.

Hardesty escreveu uma coluna a respeito dos torpedos de Reina em seu jornal, The Orange County Register, e na agitação que se seguiu, o volume foi para 24.000 mensagens. Finalmente, quando suas notas caíram vertiginosamente, seus pais confiscaram o telefone.

As notas de Reina melhoraram desde então e o telefone está de volta às suas mãos, mas suas mensagens de texto são limitadas a 5.000 por mês - e proibidas entre nove da noite e seis da manhã, em dias de semana.

Mesmo assim ela disse haver um elemento de hipocrisia nisso tudo: sua mãe também é viciada no celular que carrega em sua bolsa.

"Ela deveria compreender um pouco melhor, pois está sempre em seu iPhone", disse Reina. "Mas ela vem com essa, Oh bem, não quero ver você mandando torpedos". (Sua mãe, Manako Ilhaya, disse ter compreendido o ponto de vista de Reina.) Turkle pode entender. "Os adolescentes sentem que estão sendo punidos por comportamentos repetidos por seus pais", disse. No que ela chama de virada tocante, adolescentes ainda precisam da atenção completa dos pais.

"Mesmo enviando 3.500 mensagens por semana, quando ela sai de sua aula de balé, fica incomodada ao ver seu pai no carro usando o BlackBerry", explicou. "A fantasia de todo adolescente é que o pai esteja ali, esperando, ansioso, completamente focado nele".
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