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Anti Cultura
Gil Vicente Tavares, sábado, 1 de setembro de 2012
Anti Cultura
É comum vermos crianças muito mal educadas, hoje em dia. Elas não têm educação em casa, muitas vezes são mais criadas pelas babás do que pelos pais, passam boa parte do dia assistindo à televisão e são presenteadas a todo instante com seus sonhos de consumo: reflexo da estupidez que se tornou o falso poder aquisitivo advindo do pernicioso crédito dos cartões.

Na esteira disso, vemos crianças cheias de vontade, agressivas, prepotentes, que se acham donas do mundo, merecedoras de toda a atenção e sem limites para suas ações e desejos. Os pais, cada vez mais idiotas e responsáveis por sua irresponsabilidade, põem na personalidade da criança a desculpa por seus atos. Na minha época, a despeito do comportamento individual de cada criança, eu não via meninos se jogando no chão e dando ataques histéricos, não via meninos que – centro das atenções – ficavam perambulando por festas, encontros e locais públicos gritando, derrubando coisas, descontrolados e sem limites, sendo inconvenientes, desagradáveis, sob os risos complacentes e estúpidos de pais e avós que pareciam dizer, internamente, o tempo todo: criança é assim mesmo, esse menino é “impossível”.

É inevitável que crianças criadas para serem pequenos monstros tenham atitudes extremas como atos de violência, de ofensa e descontrole. Numa situação dessas, faz-se o quê? Dá-se uma surra na criança, a deixa de castigo, tem-se uma atitude também exacerbada em retaliação aos atos da criança?

A lei Lei nº 8.286/2012, chamada de Antibaixaria, elaborada pela deputada estadual Luiza Maia, do PT de Maluf, digo, Lula, segue os mesmos princípios acima para – de forma demagoga e ferindo o princípio da liberdade de expressão e lembrando os tempos da censura – proibir a contratação pública de artistas e bandas que executem canções que depreciem a mulher. Além disso, o relator da lei, o deputado João Bonfim (PDT), acrescentou à lei a interdição de canções onde haja referências a manifestações de homofobia ou discriminação racial e apologia de drogas ilícitas.

Antes de tudo, há que se fazer a relação mais clara com a primeira parte deste texto. Os sucessivos governos, de esquerda, direita e centro, que no fundo se igualam em incompetência e inoperância, vêm destruindo a educação e a cultura do Brasil há tempos, ou ratificando seus problemas com os sucessivos erros de política educacional e cultural, bem como os baixos salários e o desrespeito com os profissionais dessas áreas. Notadamente, podemos observar o desprezo ao bem maior que um homem pode ter, que é o pensar, o seu conhecimento enquanto cidadão, enquanto pensador, enquanto crítico, e sua relação com a diversidade cultural que o insere num universo rico e fundamental para sua formação.

A medicina oriental, há muito, mostrou o quanto os cuidados com o corpo e a mente têm a ver com um organismo complexo, onde uma dor na coluna pode ser resultado de questões relacionadas à alimentação, a um processo depressivo, à forma como a pessoa dorme, atividades da infância, um jeito de sentar. Somos um amálgama de sensações, sentimentos e ações e o tratamento alopático, local, quimicamente violento e imediatista apenas combate a consequência final, sem um tratamento necessário de suas causas e origens.

A Lei Antibaixaria vem para coibir um tipo de música que sempre existiu e que, em sua criação, tem muitas filigranas que uma primeira audição e interpretação incautas não podem, de forma simplista e autoritária, taxar disso ou daquilo outro. Além da liberdade de expressão, existem fatores históricos e culturais que podem influir na letra de uma música e muitas canções que já fazem parte do nosso imaginário têm que ser ouvidas com a visão crítica de um distanciamento histórico e cultural. Eu faria um artigo inteiro só citando e relativizando canções da história da música brasileira que, com essa atual lei, com certeza seriam objeto de multa e interdição.

Mas muito pior do que isso é vermos que os sucessivos governos permitiram chegarmos a um estado de selvageria e barbárie onde certas canções, essas, sim, sem valor algum, e meramente depreciativas e preconceituosas, são compostas, dançadas e aplaudidas pela massa ignara. Vale ressaltar que a massa ignara à qual me refiro compreende todas as castas sociais, sem distinção de cor, credo e classe.

Assim como a falta de educação das crianças de hoje pode ser encontrada das classes A à E, vemos desde um galpão qualquer da periferia até uma festa de formatura de uma faculdade particular, uma imensa compleição das pessoas a uma música que, mais do que simplista e simplória, gera, por trás de sua execução e discurso, uma barbarização cultural e comportamental das pessoas que participam desse ato de “baixaria”.

A perspectiva cultural e educacional de nossa população, seja ela moradora do Alto do Itaigara ou do Alto do Cabrito, é assustadora. Salvador abraça a mediocridade, a estupidez, a baixeza e a ignorância, ao passo que despreza nossos bens culturais que, desvalorizados, vão se acabando, perdem espaço, somem ou fogem da terra da felicidade.

Uma desgraçada autoestima foi legitimada e fortalecida para os soteropolitanos. A atitude “eu falo alto, mesmo”, “eu ouço som alto, mesmo”, “eu caio na putaria, mesmo”, “eu requebro até o chão, mesmo”, “eu tomo todas, mesmo”, “eu fico com várias/vários, mesmo”, todos os comportamentos acima e muitos outros são relacionados a uma escrota baianidade que legitima, por trás dela, toda a baixaria que a lei quer coibir através da proibição de canções.

A arte é a manifestação mais urgente da cultura, comportamento e desejo de um povo. A música, a mais urgente de todas. Se nossa população está estupidamente aplaudindo, fortalecendo, incentivando e legitimando a tal baixaria, é porque a baixaria está nessa população, em seu comportamento, seus desejos, sua manifestação cultural mais visível e apreciada.

Um povo imbuído de uma riqueza cultural e educacional dificilmente legitimaria a baixaria, pouco provavelmente teria o comportamento monocultural de apenas consumir o que de mais imediato, simplório e baixo lhe é oferecido. Mas vivemos numa sociedade onde as televisões, a imprensa, de uma forma geral, fortalece, divulga e apoia tudo isso; seja porque empresários e donos de blocos, bandas e camarotes têm vínculos com a rede de TV, ou veículo outro de imprensa, seja porque – aí vem a história do ovo ou da galinha – a imprensa está em busca de audiência, vendagem: e divulgar o mais urgente e baixo gera uma popularidade imensa em seu número de consumidores.

A maior baixaria que vejo à minha volta é o que o poder executivo e legislativo faz com nossa educação e cultura. Não consigo imaginar uma pessoa que aprendendo o prazer da leitura dos grandes clássicos, percebendo a riqueza musical que transformou a Bahia num celeiro de talentos e novidades musicais constante, uma pessoa que sinta prazer em frequentar os teatros em busca de bons espetáculos, resolva ignorar isso tudo e resumir sua vida à baixaria musical. Nem, tampouco, imagino que uma pessoa rodeada de opções culturais, rodeada de amigos que gostem de ler, ouvir músicas variadas e de qualidade diferentes, que dediquem seus finais de semana a ir ao teatro, a museus, seja uma pessoa que se resolva pela mesma baixaria.

A Lei Antibaixaria bota diversas músicas num mesmo balaio, censurando até mesmo criações irônicas, inocentes ou historicamente distanciadas pelo momento cultural e social do país, coibindo o que os próprios poderes públicos permitiram que se instalasse em nossa cultura.

Meus pais me deram educação e nunca me proibiram nada, absolutamente nada. E, no entanto, nunca experimentei drogas, nunca desci com a mão no tabaco e nem tampouco fui detonador, incentivador ou cúmplice de qualquer baixaria.

O princípio de tudo ainda está na educação e na cultura, e não na proibição, censura e repressão.

 
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